quarta-feira, 14 de setembro de 2011

"Está tudo um piteu!"

Antes das festas de fim de ano [2010-2011] Bibia me disse que tinha uma novidade – “Um cangaço!”, como ela mesma chama tudo que lhe é estranho... Enquanto banhava-se ela descobriu algo no seio direito. Desde que sua irmã Tetê faleceu de CA, num diagnóstico atrasado por sua própria escolha em não nos deixar saber dos primeiros sintomas, resolvemos, por questões óbvias, não esconder alterações de saúde para que tudo fosse de mais pronta resolução. Aprumados num acordo de quê doença não se guarda.
Entrar num carro pra Bibia sempre foi uma coisa absurda, sem trato com um enjôo, o destino mais distante que até então tinha feito de automóvel foi à Lagoa do Piató, isso há uns poucos meses, pra não ficar sozinha num domingo foi, comigo. Enquanto Tetê vivia fazia muitas viagens de excursão à Santuários de Romaria, lazer que adorava, frequentemente acompanhada por sua prima Uruguaina. ela, bibia, sem estilo pra aventuras ficava em casa, não ia.
Então, apesar de muitas explicações sobre o perigo iminente e afetivos conselhos, estalou-se num comodismo de não ir a Natal, mesmo depois de um mastectologista experiente que consultamos ter recomendado tratar de tudo bem rápido. Aqui em Assu não tendo meios...
Apesar de todo trato sério se passaram 4 meses até que num oportuno bem feito ela assustada me apareceu com uma falta de ar, “Isso tá prendendo a minha respiração!” me disse inocente, peguei pela palavra, de jeito, e no outro dia pela manhã já estávamos na capital procurando solução. Aqui tem algumas fotos desses dias, foi um sucesso a cirurgia, perdeu uma das mamas, mas, é somente evitando um pior, segue-se o traçado fazendo fisioterapia. Vivendo feliz aos 80 anos.



Na LIGA, virou logo atração, com sua frequente verve.




No Los Arroces de Segis na Ponta do Morcego, conhecendo o mar.

Comportada assistindo as indiscretas janelas do Por do Sol.



Com "as meninas de Adroaldo", primas queridas.



































De volta à sua famosa calçada, contando a viagem aos habitues.

quarta-feira, 23 de março de 2011

DONA ALICE NA INTIMIDADE




As filhas remanescentes do poeta João de Papai, célebre glosador, Maria Julieta e Teresinha Segunda, vivem na companhia de uma prima, Dona Alice Soares de Macedo, viúva sem filhos.

Bem humoradas, atentas às tradições de sua terra, gabam-se da memória prodigiosa. Quando interrogadas sobre o estado civil, respondem prontamente, entre risos. Somos duas coroas sem complexo nem ressentimento, declara Teresinha, recostada na cadeira de pano. Só nos falta o trono, acrescenta Maria Julieta, o cabelo negro cortado à maneira antiga, uma marrafa prendendo-o no alto da cabeça.

Às dez horas da manhã, Dona Alice ainda não se levantou. Na casa modesta e tranqüila a limpeza é a nota dominante. Quadros nas paredes – retratos de pessoas da família, cromos de românticas paisagens européias, e de santos católicos, além de um velho relógio que parou anunciando 9h30. Sobre uma mesa ladeada por jarros contendo arranjos de flores artificiais, numerosos e delicados bibelôs arrumados com gosto artístico.

Muito sociáveis, as três senhoras costumam receber muitas visitas e à noite, costumeiramente, um pequeno grupo se reúne na calçada para comentar os acontecimentos do dia e manter viva a velha tradição colonial do bate-papo diante das residências das pessoas gradas do lugar.



São muito conversadeiras e amáveis. Maria Julieta, por exemplo, informa que o pai criava bodes em Entrerrios, sitio tradicionalmente pertencente à sua família, cem braças de terra que o velho multiplicava criando e plantando. E, com indisfarçável orgulho, Teresinha acrescenta que o pai nunca foi empregado de ninguém. Nunca se aposentou nem entregou os pontos. Nunca ocupou nenhum político. Nunca ficou devendo a ninguém, graças a Deus. Graças a Deus, reitera Teresinha, beijando os dedos em cruz.

Depois de colher as safras, ele alugava as pastagens aos pecuaristas da região... Ainda hoje temos a nossa casinha fechada, exposta à venda, na Rua 16 de Outubro; parte da herança que ele nos deixou...

João Evangelista Soares de Macedo, mais conhecido como João de Papai, nasceu na cidade do Assu em 1891. Filho de José Soares de Macedo [1864-1955] e de Maria Ernestina [1867-1948], se casou em segundas núpcias com Adélia Soares de Macedo [1896-1972], teve o casal João de Papai e Adélia somente sete filhos, Maria Julieta, João Segundo, Zacarias, Teresinha [morta ainda menina] e Teresinha Segunda. Glosador festejado, João de papai não perdia um mote. Improvisava com fluência.

Ao contrário de muitos dos nossos poetas, papai não era pornográfico, nos diz Tetê, os olhos brilhantes sob as grossas lentes de grau. Saliente era Walter de Sá Leitão, acrescenta Bibia. Papai gostava muito de pôquer, jogando habitualmente numa roda com Astério Tinoco, Abel Fonseca e Anderson e Alair Abreu. Bebia, geralmente no bar de Ximenes. Mania ele não tinha, ao contrário da maioria dos velhos. Só o vicio de beber e fumar. Jogar, jogava por esporte. Para se distrair e conviver com os amigos. Em 1920 João de Papai partiu, numa grande aventura marítima, em busca do Pará, que naquele tempo era considerado o fim do mundo.

Bibia lembra que o primeiro avião que passou pelo Assu, levando o presidente da província, Juvenal Lamartine, causou o maior reboliço na cidade. Uma mulher parida, assustando-se com o ronco da máquina voadora, morreu dias depois, segundo a tradição local. Ah, Bibia, diz Tetê interrompendo a irmã. Acabei de me lembrar da glosa do avião, composta por papai...

                                 Na chegada do avião,
                                 Marido perdeu mulher.


                                 Em grande perturbação,
                                 Vi no campo um camarada
                                 Procurando a sua amada
                                 Na chegada do avião...


Bibia, apesar do tremendo mormaço, oferece gentilmente um café ao repórter que, sentado, anota com rapidez os versos recitados por Terezinha.


                                 E em grande confusão
                                 Não sabia nem sequer
                                 Procurando outra qualquer
                                 Em troca da que perdeu.
                                 Pois assim aconteceu,
                                 Marido perdeu mulher.

Finalmente, após fazer a toilette matinal, Dona Alice dá o ar de sua graça, desejando-nos um bom dia. É uma senhora de aparência distinta, de pele muito branca, de ótima aparência, apesar da idade já bastante avançada. Como todos os do seu sangue, Dona Alice tem os olhos azuis translúcidos, vivíssimos e brilhantes. Não sabia que tínhamos visita... Esteja à vontade, diz, sentando-se numa cadeira de balanço. Aceita um cafezinho...? Um guaraná...?

Um filhote de gato, irrequieto e simpático, vem aconchegar-se de encontro às suas pernas, ronronando. Ela se curva um pouco, para acariciá-lo, o sorriso luminoso, de satisfação plena. Os gatos são tão graciosos... Para mim, sem eles, a casa não é um lar... Sempre os apreciei. Além disso, me lembram pequenos tigres. Espero que o senhor não faça objeção à presença deles... Há quem prefira os cães, por sua subserviência aos homens.

Criada no sitio Poassá, por uma tia, Clara de Macedo, Clarinha, que morreu octogenária em 1974, Dona Alice estudou no Grupo Escolar Tenente-coronel José Correia. Nesse tempo, sempre que participavam de solenidades e passeatas cívicas, as alunas do grupo usavam chapelinas [espécie de chapéus] brancas com uma fita azul. Era minha professora Dona Sinhazinha Wanderley, que usava saia e paletó, bengala e cabelo cortado à la garçonne, bem curtinho e repartido ao meio, como o dos rapazes da época. Era duma família muito tradicional, tendo o seu pai sido vice-governador da província por nove vezes. Fomos amigas até sua morte, que ocorreu quando eu estava passando uma temporada no Poassá. Boa professora, muito amante da cidade do Assu, que, no entanto, lhe foi muito ingrata. No fim da vida, era apupada nas ruas... Tinha muitos agregados e ajudava todo mundo. Por isso, chegou a passar necessidade...

Dona Alice irradia ternura e austeridade. Conversa sem descuidar-se do gatinho, que brinca com um novelo de lã. Em dado momento, corre o pequeno felino em direção da porta da rua, causando-lhe grande preocupação. Temo que seja atropelado por um desses motoristas desembestados que se acham donos da rua...

Mas, voltando a Dona Sinhazinha, assunto que pelo visto lhe interessa. Ela nunca saiu daqui para lugar nenhum. Talvez, quando moça, tenha passeado rapidamente por Natal, onde o seu pai exerceu a medicina. Nunca arredava o pé daqui, pelo grande amor que tinha à cidade dos seus antepassados.

Morreu pobre, coitada, comenta Maria Julieta. Toda vida foi pobre, reitera Dona Alice. Mas, no fim, foi pior... Ela criou um bando de sobrinhos e agregados, vendendo versos. Muitas vezes ela mandava bilhetinhos à minha tia Clara, pedindo-lhe dinheiro... Sua casa vivia cheia de “clientes”, lembra Bibia. Ela ajudava todo mundo.

Dona Alice observa que o repórter escreve com a mão esquerda e comenta, sem desmanchar o riso simpático e juvenil. Papai também era canhoto. Escrevia, votava, fazia as quatro operações aritméticas, sempre com a mão esquerda. E, o senhor pode crer, sua letra não era nenhum garrancho...

Filha de Luis José Soares de Macedo, de apelido Sinhô Mãozinha, em decorrência dum acidente que lhe inutilizou a mão, morreu em 1958. Dona Alice perdeu a mãe, Dona Emilia, quando tinha somente cinco anos. O pai, agricultor e proprietário rural, nunca mais se casou.

Dona Alice era afilhada de Dona Fefa, a mãe do poeta João Lins Caldas, de quem guarda ainda agradáveis lembranças. Ela morava perto da casa de Maria Leitão, na rua Moisés Soares, antes chamada Rua das Hortas, a mais antiga rua do Assu. Minha madrinha era uma mulher bem gorda, as pernas mal sustinham o seu corpo pesado. Alvíssima, andava pouco e devagar. Teve apenas dois filhos, Seu Caldas e Seu Lins, um muito diferente do outro... Paciente, boa amiga, a gente ia visitá-la com freqüência. Morava sozinha... Seu Caldas, quando aparecia, conversava muito. Era um grande conversador. Era muito bem informado, mas não confiava nos políticos. Porém, a política era uma de suas paixões. Era sempre motivo de suas conversas.

O Assu era muito diferente nessa época. Não existiam pracinhas nem jardins. As ruas eram bancos de areia solta, que pareciam engolir os nossos passos. Só havia então o monumento à passagem do século. A igreja do Rosário, localizada na praça que leva o seu nome, ainda sem reboco, foi derrubada pelo prefeito Manoelzinho Pessoa Montenegro. O Instituto Padre Ibiapina, aqui perto, ainda não existia e em seu lugar funcionava a Casa de Caridade, fundada pelo Padre Ibiapina, em pagamento duma promessa. Vitima dum naufrágio na costa de Macau, o padre prometeu construir uma casa de caridade na primeira cidade a que chegasse com os sobreviventes. Lá, na Casa de Caridade, os defuntos eram amortalhados e velados até o enterramento que se fazia com grande solenidade. Eu ainda me lembro das freiras que lá viviam reclusas, as irmãs Teresa, Dionísia e Crescência. A casa tinha uma roda de expostos, na qual os enjeitados e os órfãos eram abandonados na calada da noite, quando todos dormiam, para ninguém ficar sabendo da sua origem...

Nesse tempo, quase não havia divertimentos, a não ser as chamadas quatro festas do ano [natal, ano novo, festa do padroeiro São João e da Independência]. Os pastoris e lapinhas, de grande popularidade, se realizavam no patamar da igreja matriz. O povo afluía em grandes ondas. A noticia de um pastoril se espalhava rapidamente, atraindo gente de toda a parte, até mesmo dos sítios mais distantes.

Os costumes eram outros. Ninguém fazia visitas sem mandar um próprio, marcando dia e hora. Recebia-se na sala de visitas, que se abria nessas ocasiões. Pessoas de maior intimidade podiam ser recebidas na sala de jantar. Ninguém saía sem saborear um licor, tomar um cafezinho e mastigar alguma guloseima feita em casa ou encomendada a alguma perita. As crianças eram mantidas longe da conversa dos adultos e, quando se intrometiam onde não eram chamadas, eram severamente advertidas pelos pais e responsáveis. Crianças salientes, ou seja, metidas, eram sempre malvistas e seus pais objeto da recriminação de todos.

Dona Alice conta que se casou em 1940 com um tio, o poeta Abdon de Macedo [1874-1944], que faleceu quatro anos depois. Por causa do parentesco muito próximo, os noivos tiveram de solicitar autorização do bispo para que o compromisso fosse selado segundo as leis da igreja. Antes, a coisa era ainda mais complicada, pois a autorização só podia ser concedida pelo próprio papa.

A diferença de idade entre os dois era tanta que, na rua, as pessoas achavam que o meu marido era o meu pai. Todos se admiravam muito desse casamento. Meu marido era irmão de minha mãe; quando se casou comigo, já era viúvo. Não tivemos descendência... Alice – interrompe-nos Terezinha. – Ele já encheu três páginas de anotações somente com a sua conversa. Que danado para escrever – acrescenta, assombrada. Ora, na brincadeira, ele vai acabar escrevendo um livro somente com a nossa conversa, comenta, num tom jovial, Dona Alice, debruçando-se sobre o meu caderno de notas.

Dona Alice somente fica acanhada quando a interrogo sobre os namoros de antigamente. Porém as primas, muito excitadas, encorajam-na a falar a respeito, o que ela faz rapidamente, em poucas palavras. Namorava-se de longe. Não se pegava na mão do outro, a não ser depois do casamento. Antes do casamento, pegar na mão era algo impensável, a não ser que a moça quisesse ficar mal falada por todos. Ninguém ousava. Ninguém ousava.

Ao enviuvar, Dona Alice passou oito anos morando em Natal, na companhia de Dona Clarinha, sua tia e mãe adotiva. Retornei ao Assu quando ela morreu, solteirona e já bastante idosa. Era, como Dona Sinhazinha, minha madrinha e professora, muito caridosa. Amparava um grande numero de pessoas pobres e carentes que, todas as sextas-feiras, compareciam à sua casa para receber um adjutório. Naquele tempo, quem tinha posses, sentia-se no dever de ajudar aos mais necessitados. Chamava-se a esse costume, então muito difundido entre os católicos abastados, “emprestar a Deus”...

De saborosa leitura o portal FranklinJorge.com
contendo um mágico capitulo sobre o nosso Vale do “Açu, Mitologia e Vivências”!

quinta-feira, 17 de março de 2011

Convite Missa!


Hum ano se passou desde que nossa inesquecível amiga entrou para a galeria da eternidade, imortalizada na lembrança de todos que consigo conviveram.

Tetê será sempre um retrato de esperança
em bonita e afetiva saudade.


Teresinha Segunda Soares de Macêdo

15 de Fevereiro de 1936 - 18 de Março de 2010

Neste 18 de março nos encontramos
 na Igreja Matriz de São João Batista 
a partir das 17 horas
para juntos elevarmos nossas orações
na memória de sua aura!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Franklin Jorge Roque



Tarde quente, nublada, leve turno, 
nessas surpresas que revigoram 
recebemos a ilustre visita 
do nosso amigo Franklin Jorge Roque.


Franklin e Bibia, num reencontro afetivo
depois de um hiato de 20 anos.





Um dos símbolos que marcam 
a riqueza dessa personagem
é o persistente lapidar da memória 
no humano encontro dos seres. 


Vivo escritor consistente 
elaborando um ad infinitum relato
entre a literatura e o jornalismo
de inesquecíveis autores de nossa história.


De saborosa leitura o portal FranklinJorge.com
contendo um mágico capitulo sobre o nosso Vale do “Açu, Mitologia e Vivências”!

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

2



Memória prodígio, Bibia ainda lembra deste poema mais de 60 anos depois. Foi distribuindo esse bilhete-poema, que a professora Sinhazinha Wanderley [Maria Carolina Caldas Wanderley - Nasceu em 30 de janeiro de 1876, em Assu (RN), e faleceu em 20 de setembro de 1954 nesta mesma cidade.] pedia um empréstimo aos amigos;


I
Pelo Cristo, pela Virgem,
Senhora da Conceição,
Me acuda nesta agonia,
Me valha nesta aflição,
Em que na bolsa não tenho
O valor de um só tostão.

II
Falta-me em casa farinha,
açúcar, pão e café,
Nesta cruenta agonia
Me valho de São José,
Santo por todos bendito
No qual tenho muita fé.

III
Você é pobre e bondosa
lhe peço de coração,
pelas mercês que recebes
na mesa da comunhão,
que clemente e compassiva
para mim estenda a mão.

IV
Tenho pena de quem sofre
Medonhas crises cruéis,
É minha alma sofredora
Que vem cair aos teus pés,
Maria por caridade
Me empreste 10mil réis.

V
São poucos dias que marco
Para vir aqui pagar
Porque os meus vencimentos
Estão prestes à chegar,
E eu irei com presteza
À você reembolsar.

VI
Rogo à Santa Terezinha,
Santa das mais milagrosas,
Que sobre você desfolhe
A minha chuva de rosas,
E lhe dê por toda a vida
Sorte das mais venturosas.



®http://asmeninas-assu.blogspot.com

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Aniversário de 80 anos de Bibia!


"Mais vale amigos na praça
do que dinheiro na caixa..."

"Quem não olha pr'adiante
pra trás fica...

"Loucuras da mocidade
são os troféus da velhice."


"Boa romaria faz
quem em sua casa
está em paz..."

"Faz o bem, 
e não olhes à quem!


...


Click nas imagens para amplia-las:












segunda-feira, 22 de março de 2010


Estimada amiga, boa filha,
irmã amorosa.
Alegria afetuosa. Solidária.
Confiança e Fé religiosa.

Teresinha Segunda Soares de Macêdo

15 de Fevereiro de 1936 - 18 de Março de 2o10

Que a memória alcance
seu exemplo de vida,
na esperança constante
nos caminhos
dessa nossa jornada.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Glosas de Outrora 
e Algumas Histórias!



João Miguel era vizinho de João de Papai, causava rebuliço às saídas frequentes daquele ao Piató, onde passava as noites, quem sabe, com uns namoros, porque isso deixava Joana, sua mulher, em alarido. O poeta em insônia forçada, não aguentando mais as retumbantes queixas de Joana fez essa glosa da situação:


João Miguel no Piató
Deixa Joana em confusão.

Causa pena e causa dó
O vexame em que ela fica.
Ela grita por Titica
João Miguel no Piató.
Hoje eu sei que durmo só,
Aguentar isto não,
Vou botá-lo no porão,
Acabo com a brincadeira.
Diz ele toda besteira
Deixa Joana em confusão.


A aterrissagem de um avião em Assu, novidade para o espanto da cidade pacata, resultou também num certo alvoroço. O novo, o incomum, é sempre um bom tema para a glosa que rápida de gene, é um veiculo, as vezes, relativo às crônicas dos jornais.


Na chegada do avião
Marido perdeu mulher.

Em grande perturbação
Vi no campo um camarada,
Procurando a sua amada
Na chegada do avião.
E em grande confusão
Não sabia nem sequer
Procurando outra qualquer
Em troca da que perdeu,
Pois assim aconteceu
Marido perdeu mulher.


Caboré era um tipão, popular comilão convicto, Tavares e boêmio. O historiador Celso da Silveira nos conta algumas das suas tiradas no seu livro O homem ri de graça.


Caboré fugiu daqui
Com medo de Revoredo.

Ele disse eu vou ali
Não gosto da brincadeira
Pois de xôto e de carreira
Caboré fugiu daqui.
Chegou ele em cabugi
No outro dia bem cedo
Dizendo eu venho com medo
Pois me quiseram prender.
Só vim aqui me esconder
Com medo de Revoredo.


Tenente Revoredo era o novo delegado em Assu, suas ações já viravam estórias pelas ruas da cidade, de tanto ouvir falar no novo oficial, sem conhecê-lo profundamente em pessoa, João de Papai saiu-se com essa:


Este Tenente que veio
Pra mim não pode prestar.

Logo o tipo é muito feio,
De cabra tem a mistura,
Não pode ter compostura
Este Tenente que veio.
Ontem vinha muito cheio,
Com Venvêm a conversar
E eu de perto a escutar
As proezas que fazia,
Em vista do que dizia
Pra mim não pode prestar.


Naquele tempo uma glosa sarcástica rapidamente o Assu percorria...
O novo delegado ouvindo o falar da glosa procurou saber de João de Papai como é que a ele se referia, de pronto o poeta remendou:


O Tenente Revoredo
É bom, é firme, é leal.

De errar não tenho medo
Nem temo ser contestado,
Dizendo é bom delegado
O Tenente Revoredo.
E não se diga que é cedo
Pra exaltar oficial,
Aqui não veio outro igual,
Faz justiça em profissão,
Em qualquer ocasião,
É bom, é firme, é leal.


E, assistindo a cara de pabo do ouvinte, ainda depois emendou:


O Tenente Revoredo
Dá carta e joga de mão.

De ninguém ele tem medo,
Sabe honrar os seus galões,
Só não satisfaz paixões
O Tenente Revoredo.
Seja tarde ou seja cedo
Está sempre em prontidão.
Pode ser qualquer bichão,
Mereceu, ele executa,
Depois de dentro da luta
Dá carta e joga de mão.


Cabucé também era uma figura já folclórica, mantinha a elegância e distinção no vestir-se mesmo nessas ocasiões:


Cabucé cortando bode
Com a bengala na mão.

Digo sem ser por pagode,
A figura é elegante,
Parece mesmo um marchante
Cabucé cortando bode.
Ele torcendo o bigode
De todos chama atenção
E todos que ali estão,
Admiram sua pose.
Ele diz já cortei doze,
Com a bengala na mão.


A verve do poeta também se faz glosa para Dr. Pedro Amorim, quando este fez aniversário:



Compadre Pedro Amorim
Aceite um abraço meu.

Éis estimado por mim
Sem o menor fingimento
Afirmo nesse momento
Compadre Pedro Amorim.
Comecei e vou ao fim
Sempre sendo amigo seu,
Você sempre mereceu
Do amigo a lealdade,
Em prova desta amizade
Aceite o abraço meu.



Estas bonitas, e engraçadas, glosas de Joãozinho notificam a histórica atividade da produção de tijolos “de poeira” que se dá no Entre-rios, uma região da cidade que fica entre o rio Açu e o córrego como bem o nome diz. A caieira é a denominação de uma espécie de pirâmide que é como se empilham os tijolos crus favorecendo a queima:



Pra botar fogo em caieira
Precisa muita cachaça.

Não é só pela poeira,
Muito mais pela quentura,
Pois só natureza dura
Pra botar fogo em caieira.
Só se ouve a estraladeira,
E o canudo de fumaça
Não causa riso nem graça
Só parece um furacão,
Pra aguentar o rojão
Precisa muita cachaça.



Também se queima caieira
Sem precisar de cachaça.

Trabalha-se a noite inteira
Sem vexame e sem fadiga
Comendo enchendo a barriga
Também se queima caieira.
Se enfrenta toda poeira,
Como também a fumaça,
Se leva tudo na graça,
A boca é quem faz o jogo,
Se corre em cima do fogo
Sem precisar de cachaça.




Conta-se que quando ainda menino se ele batia na porta e de dentro da casa vinha a pergunta: Quem é? Ele respondia: “É João de Papai.” E João de Papai ficou...
João Evangelista Soares de Macedo, o nosso João de Papai nasceu na cidade de Assu, Filho de José Soares de Macedo Filho e Maria Ernestina Soares de Macedo, do seu casamento com Adélia Soares de Macedo nasceram Bibia, Maria Julieta e Tetê, Teresinha Segunda.
Quando na idade aproximada de 25 anos, na Assu daquela época uma moda fez-se padrão, ir ao norte, trabalhar nos seringais de dentro da grande e ainda selvagem Floresta Amazônica. O boato era que lá se juntaria dinheiro com um ciscador... Jovem e sem muita perspectiva de renda aqui, lá foi o poeta para as distantes plagas. Desta viagem, naufragada em seus anseios, resta para a eternidade a mais inspirada lavra de seu talento, o poema A Barca, limite absoluto entre os grandes oradores da antiguidade, em que sentimos o paralelo com a Odisséia de Homero, Os lusíadas de Luis de Camões, e o Barco Ébrio de Arthur Rimbaud. Num fluxo mental entre o lá, onde estava, e o aqui, aonde estavam os seus verdadeiros tesouros, a família, o ninho acolhedor. É com muito orgulho, e entusiasmado drama que As Meninas, suas filhas, repetem a oração deste quadro, já que no navio, que o trouxe de volta, a leitura do poema fez seu upgrade (sua promoção) da terceira para a primeira classe, pelo Capitão emocionado.
A sua poesia é espontânea, nos diz Rômulo Wanderley no seu livro Panorama da Poesia Norte-Rio-Grandense, como a poesia do povo para quem ele improvisa.


A Barca
João Evangelista Soares de Macedo 
(João de Papai)



Corre a barca à todo pano 
e a noite rola no céu.
Beijando a face do oceano
branca gaivota desceu.
No tombadilho molhado 
choro só desventurado,
saudades do meu casal. 
De minha mãe os gemidos
perpassam por meus ouvidos 
como um canto funeral.

Um ano já sobre as vagas 
sem da família saber,
e do pranto as frias bagas 
por alivio ao meu sofrer.
Vê o oceano noite e dia
nas convulsões da agonia
sopradas do furacão. 
E não achar dentre a bruma
uma flor solta na espuma 
que me fale ao coração.

Minha pátria é bem distante, 
a bem distante ela está,
sobre a montanha gigante 
que não se avista de cá.
Lá ficou-me a vida inteira, 
nessa hora derradeira
do meu adeus a chorar, 
como andorinha da serra
vagueio de terra em terra 
condenado a não voltar.

De noite escuto os soluços, 
do marinheiro o clamor,
sobre a amurada debruço 
lembrando a mãe que deixou.
E choro beijando as sombras 
dos denegridos na alfombra
que resvalam destes céus. 
Ai triste de quem proscrito
nem se quer saudoso e aflito 
pode chorar junto aos seus.

É essa a hora da reza 
na minha casa do além,
as luzes brilham na mesa, 
ouso falar minha mãe.
E as criancinhas amadas, 
soltando infantis risadas,
deslizam pelo jardim. 
Entre a alegria do ninho
alguém suspira baixinho
pensando talvez em mim.

És tu minha irmã saudosa 
que a face inclina na mão,
semeando a branca rosa, 
vergada pelo tufão.
E quando o sino da aldeia 
marca a hora triste e cheia
de misticismo no lar, 
na reza do teu conforto
pergunta se serei morto, 
dormindo no fundo do mar.

Ai quem me dera o momento 
dos que passei nos vergeis,
beijando ao sopro de vento 
de minha fronte os anéis.
Proscrito és todo meu nome, 
arbusto pior que a fome,
pior que a serpe, o jaguar. 
Viver sem fé, sem carinho,
por uma escada de espinhos, 
descer ao fundo do mar.





[...]

Estas a seguir são de Tio João, João Adolfo Soares de Macedo, filho de José Soares de Macedo, um pacato empalhador de cadeiras e Maria (Maroca) uma fanática jogadora de cartas, no mais das vezes essa jogatina durava muito tempo, atravessando as refeições... Então:


A casa do meu papai
Está servindo de hotel.

Quem quer comer pra lá vai
E lá lhe dão de jantar.
Penso que vai prosperar
A casa do meu papai.
Sem comer de lá não sai
Após o jantar tem mel,
Depois brinca o carrossel
Maroca faz mil carinhos.
A casa dos dois velhinhos
Está servindo de Hotel.



Se Maroca botar Jogo
Sei que vou dormir na rua.

Não compro lenha pra fogo
Nem mantimento pra casa
Meto os pés espalho brasa
Se Maroca botar Jogo.
Só tentação do diogo
Ou, uma ilusão sua,
Não compro ferro pra pua,
Não empalho mais cadeira.
Se levar na brincadeira
Sei que vou dormir na rua.



Um mote ficou sem glosa? Erra solteiro...
Pelo menos é o que As meninas pensam. Disso elas também se perguntam:


A velhice é um pavor.
Assim diz a mocidade.


Os da boa lembrança nos ajudem nessa história.
De minha parte inventei e rabisquei essas versões, como uma forma de saber, até, se lhes salva a memória.


Sem ser filme de terror,
Assim nos mostra a história,
Mesmo ao mais coberto de glórias,
A velhice é um pavor.
Assusta até o doutor
Sem remédio em solução,
Derruba qualquer barão
Ao mendigo, ela executa.
Aproveite a vida é curta
Assim diz a mocidade.



Pra mim perdeu o valor,
O sujeito displicente
Que nos diz de seu repente
A velhice é um pavor.
Se fazendo de doutor,
Julgando pela idade,
Nisso faz barbaridade.
A juventude é presente
Na saúde inteligente, decente,
Assim diz a mocidade.



A saúde é um valor,
Disso sabe o previdente
Quando fala displicente,
A velhice é um pavor.
Fazendo disso um horror,
Ele esquece que a idade
Nisso faz barbaridade.
Viver a vida contente
Na saúde inteligente,
Assim diz a mocidade.



Dizia Durval, segundo seu filho Dedé(galego do leite):
Um mote termina aonde a glosa começa...



Vi Neto com Rosa embaixo
Dos Fícus da praça São João.
Estou consciente do fato,
vinha andando pela rua,
alto, já ia a lua,
Vi Neto com Rosa embaixo.
Estou bem certo no caso
no fogo estendo a mão,
falharam foi na precaução.
No esfrega em que estavam,
de ver se as copas faltavam
Dos Fícus da praça São João.



[...]